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Santa Cruz da Graciosa

terça-feira, novembro 01, 2011

Sem crédito e cheio de vícios

O próximo ano será de mais dificuldades para famílias e empresas dos Açores. A austeridade e os sacrifícios pedidos aos Açorianos serão, infelizmente, uma dura realidade.
Temos ouvido o Governo Regional adoptar um novo discurso na abordagem da situação socioeconómica. A frase mestra é de que, devido às dificuldades económico-financeiras, várias promessas eleitorais ficarão por cumprir, vários investimentos não deixarão o papel e é tempo de apertar o cinto. Contudo, não podemos deixar de notar que esta nova postura pouco tem de sincera, e não passa de uma forma oportuna de desculpar estratégias erradas. Vejamos: as transferências do Estado não sofrem cortes significativos ou inesperados, e o Governo Regional irá beneficiar de medidas que aumentam a sua receita como é o caso das alterações relativas ao IVA, não havendo, à primeira vista, uma razão objectiva para este discurso de desculpabilização para os acentuados cortes de investimento que algumas ilhas irão sentir, como no caso da Graciosa que terá uma redução na ordem dos 13%.
Aquilo que o Governo Regional não diz e que afecta, de facto, a sua capacidade e disponibilidade financeira, é que o modelo de financiamento que usou e abusou nas últimas legislaturas secou. Ou seja, o Governo, que criou dezenas de empresas públicas para se financiar através de crédito junto da banca, vê agora a contracção do crédito impedi-lo de continuar a governar numa fantasia de que possui fundos para todos os devaneios a que se foi habituando. Não havendo onde pedir dinheiro, resta usar as receitas próprias e as transferências do Estado que terão de suportar uma pesada máquina eleitoral que prejudique o menos possível os objectivos políticos do Partido Socialista.
A somar a esta situação de menor financiamento e de menor crédito para penhorar o futuro dos Açores como se tem feito nos últimos anos, deparamo-nos com uma situação social de graves dificuldades em que, segundo dados recentes, 1 em cada 3 açorianos está em situação de pobreza.
Depois de gastos mais de 25 mil milhões de euros, os Açores continuam sem conseguir sair da cauda do país, sendo uma das regiões onde a pobreza mais se acentua, onde o desemprego mais sobe e com o habitual recorde de pessoas a viver do rendimento mínimo.
Serão tempos difíceis que se aproximam, mais difíceis ainda porque não se fizeram as apostas certas, mantiveram-se muitos açorianos na pobreza, incentivou-se o endividamento e a fraca produtividade e promoveu-se a dependência do poder público. Agora a culpa é de outros. Onde é que já vimos este filme?


Publicado no Diário Insular e Rádio Graciosa

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